quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


AMEAÇA ÀS AVES DO CERRADO
                                                                                       (Luiza Brasileiro)


Passaredo
(Chico Buarque)

Ei, pintassilgo
Oi, pintaroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tié-sangue
Xô, tié-fogo
Xô, rouxinol sem fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí
Ei, quero-quero
Oi, tico-tico
Anum, pardal, chapim
Xô, cotovia
Xô, ave-fria
Xô, pescador-martim
Some, rolinha
Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem a

O Brasil, um dos países megadiversos, é detentor de uma das maiores riquezas de avifauna do mundo. Este título, no entanto, traz associado consigo outras marcas não tão louváveis, como a posição de destaque do nosso país também na perda de tal riqueza.
O Cerrado, tradicionalmente pouco valorizado devido a sua aparência pouco exuberante, é uma das savanas mais ricas do mundo, além de um dos biomas mais ricos do país. A grande diversidade encontrada no Cerrado , dentre outros motivos, é devida a sua antiguidade, sua heterogeneidade de fitofisionomias, bem como ao fato de fazer fronteira com quase todos os outros biomas brasileiros (com exceção dos campos sulinos).
Em relação à avifauna, ocupa o 3o lugar em riqueza, atrás apenas da Amazônia e Mata Atlântica. É também o 3o bioma com maior número de aves endêmicas: cerca de 50 (Gwynne et al, 2010) das mais de 800 espécies registradas, como o meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata); o papa-mosca-do-campo (Culicivora caudacuta); o andarilho (Geositta poeciloptera); o mineirinho (Charitospiza eucosma); o campainha azul (Porphyrospiza caerulescens) e o tapaculo-de-brasília (Scytalopus novacapitalis) (Gwynne et al, 2010).

Tapaculo de Brasília. Ave descoberta em 1957, com a realização da 1a pesquisa científica  de aves para a construção de 
Brasília.

Foto: Nick Athanas
Disponível em: http://ibc.lynxeds.com/photo/brasilia-tapaculo-scytalopus-novacapitalis/dorsal-view



Campainha azul, azulão do cerrado ou azulinho do
 bico de ouro (macho a esquerda e fêmea a direita).
Além de endêmica, espécie considerada próxima de 
ameaça de extinção.











Foto: P. Lima

Disponível em:www.ao.com.br/download/porphyro.pdf

Ao analisar apenas os táxons ameaçados, infelizmente, subimos de posição, ficando em 2o lugar, atrás apenas da Mata Atlântica (Marini & Garcia, 2005). Este fato se dá principalmente devido à grande pressão antrópica sofrida por esses biomas, levando a considerável perda de habitat não apenas das aves, mas de praticamente todos os grupos de vertebrados. No caso do Cerrado, tal perda de habitat tem se dado sobretudo devido ao avanço da fronteira agrícola, especialmente a soja, favorecendo algumas poucas espécies mais tolerantes e prejudicando muitas outras.
Um estudo realizado no Distrito Federal em 2001 indicou que nada menos que 43% do total de aves do Cerrado e 80% das aves do DF foram registradas em quatro das mais representativas áreas protegidas do DF, sugerindo a importância destas áreas para a preservação da classe, bem como a ameaça da destruição de habitats.
Assim, nas palavras do pesquisador Carlos Bianchi, do IBAMA, referindo-se à ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em razão da descoberta do raro pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) na região: “Apesar de estar cada vez mais em perigo, as aves do Cerrado [ainda] são capazes de ajudar o homem na conservação da natureza."
Pato mergulhão. Aparece tanto na lista de espécies ameaçadas do Ministério do Meio Ambiente (ameaçado) quanto da IUCN (criticamente em perigo). É considerado hoje uma das espécies neotropicais mais ameaçadas


Foto: Lester Scalon




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